Textos – A Morte Matada de Rodolfo Goulart em 14 atos

Ato 1

Adilson entra agitado na diretoria, sua feição é de desespero, gotas de suor escorrem por toda sua careca, que brilha muito mais que o habitual. Passa direto pela secretária sem sequer perceber sua presença. Na sala da Diretora-Presidente, com a voz trêmula e baixa diz:

– Marlene, o trabalho está feito.

– Muito bem Adilson! Deu conta do corpo?

– Sim, está na sala de reuniões número oito. Pensei em tudo: o ar condicionado lá é muito gelado, o que faz com que ninguém entre, além disso, o frio retardará o apodrecimento do corpo e o cheiro. O arrastei para debaixo da mesa. Podemos retirá-lo de lá quando o expediente se encerrar e a empresa estiver vazia.

– Tu achas que alguém viu ou percebeu?

– Não, o convidei discretamente para uma reunião sobre a qualidade do café. Pedi de maneira expressa para não comentar com ninguém, aguardei sua chegada atrás da porta, e quando ele adentrou foi necessário apenas um golpe de porrete em sua cabeça para que desfalecesse.

– Excelente trabalho! Estou inserindo agora em minha planilha como cumprida sua meta na participação dos resultados. Parabéns!

Ato 2

José vê Adilson entrando na sala de reuniões número oito e em seguida Rodolfo Goulart. Estranha a situação. O que faria diretor de Recursos Humanos e aquele empregado insignificante se encontrarem sozinhos? Depois de um tempo Adilson sai, aparentemente atordoado. Rodolfo Goulart não.

Ato 3

Marlene foi chamada na reunião do Conselho de Administração. Seis conselheiros a encaravam de maneira severa. O Presidente do conselho Dr. Raimundo, com sua objetividade contumaz dirigiu-se a ela.

– A questão é a seguinte: estamos preocupados com as contas da empresa. Olhamos detalhadamente todos os gastos e é fundamental que continuemos a comprar o café mais barato do mercado. Isso é essencial para a continuidade de nossos negócios e saúde financeira de nossa companhia.  Não quero pressioná-la, mas gostaria de lembrar que caso não bata os indicadores que determinamos no início do ano teremos que substituí-la por um gestor mais aplicado.

– Dr. Raimundo tenha certeza que resolverei tudo rapidamente e da melhor forma.

Ato 4

Adilson estava em sua sala, jogando paciência no computador, quando Marlene entrou. Ele rapidamente minimizou a tela e fingiu estar redigindo um relatório. Começou a reclamar do excesso de trabalho, momento em que ela o interrompeu:

– Adilson, temos que acabar com a resistência em relação ao café ordinário que temos dado para os empregados. Prepare uma série de palestras sobre a qualidade do café. Diga para todos os empregados que servimos o melhor café disponível no Brasil, não, no mundo!

– Pode deixar Marlene, falarei com aquele menino, o Ricardo, para preparar as apresentações.

Ato 5

José entra na sala e vê o corpo de Rodolfo Goulart imóvel e estirado embaixo da mesa. O cutuca. Percebe que está frio. Desnorteado, sai rapidamente.

Ato 6

Ricardo era um jovem ambicioso. Sentiu-se honrado por receber uma função tão relevante. Imagine só, Adilson falou que ele foi escolhido para realizar um trabalho demandado diretamente pelo Conselho. Tinha certeza de que esse era o momento em que iria brilhar. Já se imaginava um futuro diretor. Trabalhou arduamente por semanas e preparou uma palestra impecável. Na apresentação em Power Point havia diversos gráficos, inclusive a comparação entre o café servido naquela empresa com o de todas do segmento. Estava pronto para esclarecer todas as dúvidas dos empregados. Era o seu momento, ele sabia disso e resplandecia como uma purpurina.

Ato 7

Foi uma série de quatorze apresentações. Nas treze primeiras ninguém se manifestou. Os empregados ficavam estarrecidos com o que achavam uma ladainha. Ricardo, empolgado com seu momento de glória sempre perguntava ao final:

– Dúvidas, dúvidas?

Foi quando na última palestra, justamente na décima quarta, Rodolfo Goulart ponderou:

– Olha Ricardo, eu até compreendo o que você está me dizendo, mas eu não gosto muito do café daqui. Não seria possível comprar de outra marca? Ou ao menos fazê-lo menos aguado?

Ricardo tinha se preparado para tudo, menos para um questionamento tão profundo quanto esse. Sentiu-se humilhado na frente de seus pares. O ódio o consumiu por dentro. Aquilo não iria ficar barato.

Ato 8

José resolve voltar à sala. Tem que ter certeza se Rodolfo Goulart está vivo ou morto. Ajoelha-se e sacode o corpo.

Ato 9

Ricardo relatou a Marlene o questionamento de Rodolfo Goulart. A Diretora-Presidente ficou irada e mandou chamar imediatamente Adilson em sua sala.

– Adilson, preciso que você dê um jeito nesse rapaz. Sinto que ele é um foco de resistência. Esse insolente pode colocar tudo a perder. Não há outra solução. Temos que matá-lo! Resolveremos dois problemas de uma vez, o do café e o da redução de custos com empregados.

– Excelente ideia Marlene! Como e quando faremos?

– O quanto antes!

Ato 10

Rodolfo Goulart acorda sem compreender o que aconteceu. Vê José ao seu lado e relata que apenas se lembrava de Adilson o ter chamado para uma reunião e que quando entrou na sala, toda apagada, levou uma pancada na cabeça.

Ato 11

Adilson volta à sala para recolher o corpo e se depara com Rodolfo Goulart e José sentados conversando no chão. Fica sem reação, e começa a falar desesperadamente. Explica o plano do assassinato, diz que a culpa é de Marlene e de Ricardo, que ele tentou sim matá-lo, mas apenas cumpria sua obrigação. Em seguida começa a chorar e diz que já está mais velho e que tem um problema nos rins. Que precisa muito do emprego, e que entre deixar sua família na penúria e matar Rodolfo Goulart a segunda opção é sem dúvida a melhor, embora até tenha simpatia por ele. Pede que o compreenda. Afirma que a questão é puramente profissional.

Nesse momento Rodolfo Goulart vira para Adilson e pergunta:

– Eu só não gosto do café. Precisa mesmo me matar por causa disso?

Adilson fica sem resposta enquanto José pensa em como Rodolfo Goulart é capaz de fazer perguntas tão profundas.

Ato 12

Marlene acha que Adilson está demorando a voltar, se dirige à sala de reuniões número oito e o vê junto de José e Rodolfo Goulart. Rapidamente saca uma pistola e mata os três a sangue frio. Procura Ricardo em seguida e solicita que ele dê um fim nos corpos.

Ato 13

Um ano depois Marlene recebe o prêmio de melhor Diretora-Presidente do ano por uma revista especializada. Na cerimônia agradece a Ricardo, seu novo diretor de Recursos Humanos. Diz em seu discurso que nada disso seria possível sem a ajuda dele. Ricardo sorri. Finalmente está brilhando como merecia.

Ato 14

Rodolfo Goulart, José e Adilson passam a ser estampados como desaparecidos em caixas de leite, que, com a economia decorrente do corte de três empregados, agora é servido junto do café.

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