Textos – Dou-te nada

A verdade é que Max não estava acostumado a receber. Com desinteresse, quero dizer. Desde os anos mais antigos, sempre que alguém o ajudara, ele tivera que dar algo em troca. Da morte dos pais à fuga do tutor, parecia uma regra. A regra do mundo, a que ele logo aceitou.

O costume de não receber culmina no hábito de não dar. Por isso, assim de mão beijada, Max não dava nada. Pela regra, nem aceno, nem bom dia praqueles malucos que ofereciam sorriso ou ajuda de forma repentina. Aqueles que surgem na portaria, no meio da rua, no ônibus, no escritório, com a mão estendida. Esses querem dinheiro, telefone de contato e favores… Até os mais íntimos.

Assim, Max não vivia o mundo. Sem tato, era preso num mundo interior, só dele, só nele. Max era só frieza para o mundo e, a cada ano, a cada passo enfadonho da humanidade, a frieza de Max o fazia mais do mundo do que os que realmente viviam o mundo.

Num mundo frio, os frios se destacam. E foi assim que, um dia, Max se tornou chefe de departamento. Para os que vivem num mundo frio, não há maior destaque. Mas eis que o mundo é também contraditório e, ao ganhar tal destaque, Max teve que sair do seu próprio mundo. E foi ao ter que lidar com outros departamentos, outros mundos frios, que Max conheceu Madeleine.

Sorriso iluminado, rosto de anjo, Madeleine nem parecia daqueles mundos. Madeleine era quente e Max quis saber mais daquele calor.  Ao seguir os passos da moça, ao conhecer detalhes e intimidades, Max descobriu um curioso apelido: Demo.

Max se entregou aos encantos de Demo. Saiu um pouco mais de seu mundo interior e resolveu se esquentar. E foi entre sorrisos embrionários, duma expressão de anjo torto no rosto de Max, que veio a declaração. Era um momento infantil, uma volta ao começo, entre versos de um poema pescado em correntes virtuais e muito suor. E Demo, que ali enxergara o calor de Max, também se apaixonou.

Foi Demo quem disse a Max, dias depois, que aquela relação era um namoro. Max nunca tivera nem um amigo, que dirá uma namorada. Ele já ouvira muito sobre relacionamentos, embora não soubesse reconhece-los. Ele já ouvira muito do quanto as pessoas se entregam a relacionamentos, embora não soubesse como.

Max resolveu tentar e se envolveu de corpo e alma. E passou a dar tudo e esperar que Demo também desse tudo.
– Porque assim é o amor, não é? – ele dizia. Não é como as outras relações… No amor, o interesse é o outro. É isso que a gente quer: o outro. Por inteiro.

Então, Max cobrava que Demo se preocupasse com ele, ligasse para ele, ouvisse e estivesse presente o tempo todo. E se incomodava muito por Demo não se importar quando ele não podia estar por perto. Imaginava que ela não deveria amá-lo da mesma forma. E não se importava se a única coisa que Demo realmente queria era realmente amá-lo.

Demo sempre dizia que Max deveria honrar o próprio nome e ‘maximizar’ suas relações. Agir certo e entender certo. Ele não entendia. Um dia, Demo terminou com Max e ele também não entendeu. O mundo que era quente ficou frio de repente e Max achou que agora sim, Demo era má. E disse que ela realmente não o amava, que aquilo sim é que não era certo. E Max entendeu menos ainda quando, antes de partir, numa expressão de anjo triste, Demo disse:

– O certo é dar tudo quando o que se espera é nada. E dar nada quando o que se espera é tudo.

NOTA: O texto foi livremente inspirado pelo videoclipe abaixo, para falar dessas coisas que correm por essas vidas de seres comuns com sentimentos em comum.

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