Textos – Quantos estragos nas trajetórias as pessoas vivem até chegar aonde estão?

Depois de 7 meses, por aquele tipo de acaso calculado (ou providenciado ou energizado), nos reencontramos. Andamos juntos pelas ruas. Muitas pessoas olham para a aparência dela com certo espanto, com certa repulsa, com certa pena, com certo julgamento, com certo nojo, com certa surpresa. Como se vissem a cara do fundo do poço. Ela tem 50 anos e vive nas ruas que cercam a cracolândia em São Paulo. Ela não têm dentes na boca, tem uma barbicha no queixo e é muito magra. Ela vive num estado, que pode ser considerado, alterado, com suas roupas maltrapilhas, seus saquinhos nas mãos e seus sacões nas costas pesando sobre os ombros. Sentamos num canto. Conversamos sobre a última vez que havíamos nos visto. Ela continuava ali, por aquelas ruas, sem qualquer vínculo com sua raiz, sem qualquer futuro para qualquer fruto. Sem presente. Só trocados, esmolas, comidas, cigarros, isqueiro e crack. Como eu sabia que meu tempo seria curto naquela cidade, tentei não perder tempo nas palavras. E mesmo me vigiando para dar a ela somente gestos de carinho, sorrisos, amor no olhar e afeto no encostar, todo incentivo meu para qualquer tipo de ida à abrigos, internação, casas de recuperação ou voltar a morar com parentes e amigos era em vão. Ela tem traços de agressividade, maneiras ríspidas de cortar o que não é de seu agrado, creio que por muitos motivos…miséria, drogas, rua, relento, desalento, história de vida, mendicância, e milhares de outros porquês que desconheço…Comecei, então, a falar sobre assuntos variados… família, cidades, música. Falei sobre mim, minhas dores, meus desejos de felicidade, minha fé, meus pais…Mostrei uma foto deles no meu celular. Ela perguntou sobre irmãos. Pediu para ver uma foto da minha irmã. Aproveitei o embalo e mostrei vídeos do meu sobrinho e da minha avó. Contei sobre a vida de cada um e a morte de alguns. Aproveitando que estava com o celular na mão, perguntei que música ela gostava. Música romântica, respondeu. Sugeri, então, Roberto Carlos. Peguei meus fones na mochila, coloquei nos seus ouvidos e escolhi algumas músicas românticas da época da Jovem Guarda… imaginei que lhe traria lembranças remotas… Meu Deus! Foi impressionante (É impressionante) como a música traz uma memória afetiva, escondida, empoeirada e cheia de craca por cima do agora. Ao percebê-la ouvindo (e aos poucos cantando), era como se ela revisitasse ou redescobrisse uma vida que ainda existia, uma vida que já foi possível ou que será possível… uma vida que havia luz, havia harmonia, havia conteúdo, havia melodia, havia passado, havia trajetória, havia dores, havia cheiro de lugares, cheiro de família, de antigos amores…  Depois da 3ª música, ela tirou os fones do ouvido, e com os olhos cheios de lágrimas, me disse que eu queria fazê-la chorar. Ela não quis se enfrentar. Eu entendo. Não é fácil para ninguém. É um processo que para todos requer uma transparência difícil de conquistar. Insisti, tirei os fones do celular, e passamos a ouvir alto, juntos. Troquei as músicas românticas do Roberto pelos seus hits mais acelerados. As lágrimas nos olhos que a pouco haviam sido impedidas de cair, desapareceram. Leves sorrisos e lábios cantando tomaram seus lugares. Depois da nossa sessão musical, conversamos um pouco mais. Ela me falou sobre seus filhos (3) e seus ex-maridos. Disse que um filho ficou em estado de choque quando a viu nas ruas, que precisou ser socorrido por dois policiais. Eu os buscava para sua vida hoje, pro agora. Mas sempre havia frases que impediam os assuntos que navegam na parte escura do oceano. Depois de um breve e mútuo silêncio. Ela virou para mim e falou: “Vou te contar uma coisa que nunca contei pra ninguém”. E me disse um fato ocorrido no início de sua juventude. Um segredo dilacerante para qualquer alma, um espinho que atingia o coração do seu espírito, uma tragédia para o corpo na sua história. Eu não posso mensurar. Não posso. Não posso alcançar com minha mente ou meu coração o quão sofrido deve ter sido ser obrigada a ser personagem deste (f)ato que me foi contado.

Quantos estragos nas trajetórias as pessoas vivem até chegar aonde estão?

Antes de ir, perguntei se ela iria comigo para minha cidade. Eu disse que a levaria à praia. Ela respondeu que tinha pavor, que não iria ao mar e contou uma situação de quando era mais nova que a traumatizou. Ofereci procurar algum serviço para ela. Ela disse que aceitaria se não ficasse “aprisionada” em um lugar (como eu estava propondo antes com os abrigos e internações). Fiquei de fazer alguma coisa, qualquer coisa concreta. Agora, por enquanto, estou com ela (e com tantos outros) na concentração da minha oração, na súplica de preces terminadas por pontos de exclamação e interrogação, nas outras vidas que tento experimentar fora da minha…

 A foto dos meus pais reabriu uma brecha da porta que havia acabado de ser batida bruscamente. E a música foi um vento que abriu um pouco mais essa porta… Aos meus amigos músicos (ou não) e aos que tem vontade de ter o coração consumido pelo fogo de estar vivo, digo: O amor e a música podem abrir alguns corações que todo mundo achava que tinha virado túmulo. Inclusive, o nosso.

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