Textos – Quadro na Parede

Sexta-feira, 20 de novembro, 14:00. Maria está sentada em uma banqueta no centro de uma grande sala com pé direito alto, paredes de tijolos pintados de branco, chão de tábua corrida e janelas amplas. Completamente nua. Segura uma flor vermelha em sua mão esquerda apoiada entre seus seios, com o fino antebraço tampando parte de um seus mamilos rosados. Em um primeiro olhar aparenta timidez, até por conta de sua pose, que simultaneamente expõe e esconde sua nudez.

Em volta de si, quatro aprendizes a retratam, cada um de maneira distinta. Luiz, influenciado pelo cubismo, a pinta desconstruída, André, com um espírito mais romântico, enfoca nos tons de sua pele em contraste com a flor, valorizando as cores e iluminação, Raimundo, prefere o abstrato, enquanto Mariana se restringe a uma parte da cena, colocando em sua tela inúmeras variações de seus olhares.

Aquela mulher jovem, bonita, de vinte e poucos anos permanece estática, controlando o vulcão que a consome por dentro. Era impossível perceber que há tão pouco tempo tinha vergonha de seu corpo, de sua vida, e agora estava ali, exposta, nua, e mais que isso, deixando que a observassem detalhadamente e registrassem a profundeza de sua alma.

Começou a relembrar o início daquela semana que parecia ter mudado totalmente seus os rumos. O vagueio foi interrompido pelo professor que entrou na sala informando aos aprendizes que as atividades deveriam ser encerradas.

Saiu de sua pose, vestiu-se e levantou. Andou calmamente mirando cada uma das telas. Ficou maravilhada. Pensou em como cada pessoa podia enxergá-la de maneira tão diversa. Em cada esboço reconheceu um pouco de si. Na cubista seu caos, sua explosão interna, na romântica sua delicadeza, na abstrata seus desejos profundos e na outra, uma ínfima parte do que podem ser seus infinitos olhares. 

Segunda-feira, 16 de novembro, 16:00. Maria levantou-se irada de sua mesa de trabalho, praticamente em catarse xingou seu chefe e saiu em direção ao bar do outro lado da rua. No meio da tarde naquele pé-sujo havia apenas alguns bêbados conversando no balcão, mais alguns ouvindo música no Jukebox e outros jogando na máquina de caça-niqueis do fundo.

Queria se acalmar, talvez até esquecer daquele momento de fúria. Encostou no balcão, pediu uma cerveja e bebeu pensativa. Que opções erradas a levaram até aquele momento? Por volta das 19:00 um cara entrou no bar, destoava dos outros presentes, a olhou de longe, foi retribuído, se direcionou a Maria, puxou assunto, foi correspondido. Embebedaram-se juntos, e ele, hipnotizado pela beleza, a convidou para a saideira em sua casa.

Quarta-feira, 18 de novembro, 8:30. Maria acordou pela segunda vez entre os lençóis de algodão da cama daquele quase desconhecido. Ainda não acreditava na loucura em que se meteu. Olhou o entorno, as paredes brancas, o chão de taco, os CDs de Ella Fitzgerald, Billie Holliday, Tom, Vinícius, Raul e Nirvana jogados ao lado de um som, os quadros na parede. Uma pintura chamou especialmente sua atenção. O Homem acordou em seguida e lhe deu um beijo. Maria olhou para ele e disse:

– quero que me pinte, expor minha alma em uma tela, e quero que seja logo! Você faria isso por mim?

Sexta-feira, 20 de novembro, 15:00. Após um pouco de conversa com os demais artistas André se dirigiu a Maria:

– vamos?

– vamos.

Saíram pelos longos corredores da escola de Belas Artes em uma cumplicidade de muitos anos conquistada em menos de uma semana, passaram pela enorme porta do prédio e ao atravessarem a rua, distraídos, um carro em alta velocidade veio de encontro a Maria. André assistiu em câmera lenta o acidente fatal.

Rapidamente uma roda de curiosos se formou no entorno do corpo sem vida. Em estado de choque André ajoelhado abraçou Maria morta e desmontou em uma cachoeira de lágrimas. O maior amor de sua vida durou apenas cinco dias. O quadro (inacabado) foi pendurado na parede de sua casa, de onde nunca saiu.

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