Textos – Nariz de palhaço: Era uma vez, no futuro…

Alexandre conecta-se ao Imac 1000.
Um piscar de olhos e o acesso aos arquivos é liberado.
Ele pede ao computador para que abra a pasta de vídeos.
Dezenas de arquivos soltos… Caos cibernético.

Um adolescente entra no escritório, aperta um comando que aproxima uma cadeira.
O jovem senta-se para ajudar o avô nas escolhas.
Clipes, shows, entrevistas.
Alexandre tem necessidade de passado.

Um vídeo surge no ar.
A lembrança é vaga.
E Alexandre não entende como aquele arquivo pode ter se perdido no tempo.

Com ansiedade na voz, Alexandre pede para que o neto acione o player.
Um chapéu. Uma mesa. Uma escultura. Um programa de peça de teatro.
Discos de vinil, uma vitrola, um violão.
E acordes.
O neto observa os olhos ao lado. Pensa consigo que, a cada dia, eles estão mais enrugados.

Entra em cena o homem do vídeo.
Julinho não era apenas um amigo do pai de Alexandre.
Era parte daquela música.
Era amigo íntimo e parte da lembrança que Alexandre carregara do pai.
O pai em um sorriso esquecido.
Um sorriso parecido com aquele que o neto fitava ao lado.

As imagens seguem e Alexandre lembra-se de Pedro, o diretor.
Pedro, que envelhecera junto e distante.
Presente nas notícias e mensagens enviadas pela esposa, Mariana.
Ausente nos reencontros para chopes e risadas.

Os últimos encontros do grupo resumiam-se mesmo a momentos tristes.
Depois de boates, bares, noivados, casamentos, chás de bebê, batizados e festas infantis, só restavam os velórios.
Afinal, esse é o ciclo da vida.

Para não esquecer a imagem do amigo diretor, Alexandre recorria à rede.
Pedro estava semanalmente no canal de cinema, dividindo a mesa com um consagrado cineasta e duas jovens promessas.
O choque de gerações era o programa mais acessado do canal.
O programa, uma discussão aberta sobre os caminhos tortuosos do cinema brasileiro.
De óculos redondos, chapéu panamá e gravata borboleta, Pedro fazia a vez da figura amargurada.
Um mestre de roteiro, de postura crítica que, depois de velho, ficara um pouco desacreditado das imagens.

Julinho agora sorri.
Um palhaço-poeta disposto a espelhar sorrisos.

Como Pedro, que sempre foi feliz na carreira e na vida íntima, pôde se tornar um personagem assim?
Bem… Vá lá. Ali, ele é um personagem. E o público precisa dos Pedros.
Toda geração precisa de seu Paulo Francis, de seu Arnaldo Jabor.

Na reflexão sobre a carranca de Pedro, Alexandre lembra-se da última força daquele vídeo.
O único rabugento que fora verdadeiramente rabugento.
Um amigo com quem dividira sonhos e parcerias.
Um amigo que não conseguiu tudo o que queria, mas que, reclamão ou não, construira uma estrada.
Um amigo que deixou saudades e agora, num frame, aparece no vídeo.

O palhaço olha para os alunos na sala de aula e Alexandre se vê novamente jovem.
Agora é a vez do avô perceber a reação ao lado.
Um olhar adolescente, treinado para encontrar defeitos e diminuir o antigo.

A testa sem rugas está franzida.
Pelo som, pela luz, pelos cortes, pela produção, pelo cru.
O silêncio musical é quebrado.
E a voz de ancião sobressai ao pré julgamento:
– Muitas vezes a gente não consegue planejar direito o que precisa fazer. A gente não tem tempo suficiente pro que precisa fazer. A gente só sabe que precisa fazer. E a gente faz… Pra ver o que vai dar no final. E, mesmo imperfeito, é no final que a gente percebe que precisava fazer assim mesmo… Sem plano e sem tempo.

O neto não responde e volta-se novamente para o silêncio musical do vídeo.
Tudo bem. Um dia ele vai entender.

O velho músico olha para as imagens finais.
As fotos passam corridas e a cabeça voa longe.
A felicidade no espelho
Um espelho da felicidade dos outros.
A necessidade de espelhar a própria felicidade.
Alexandre lembra novamente do pai, da mãe, da irmã, da esposa, dos sobrinhos, filhos e netos.
E em frames…
Julinho, Pedro, Mariana, os amigos… O amigo rabugento.

O neto de Alexandre olha novamente para as rugas ao lado.
Agora elas estão espremidas entre um sorriso e uma lágrima.

O vídeo termina e o player é fechado com comando de voz.
O neto se levanta, coloca a mão sobre o ombro do avô e sai.
Os olhos umedecidos piscam e o Imac 1000 é desligado.

A vida segue…
Como sempre seguirá.

Mas o nariz de palhaço continuará espelhado no chão.
Espalhado em sorrisos.
Solto, para quem mais quiser usar.

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