Textos – Aperto de mão

Benjamin andava desanimado. Quando resolveu sair do interior sabia que a metrópole era hostil, mas jamais imaginaria que após alguns meses da mudança seu peito sentiria fisicamente a aura de medo e a indiferença que, tal qual a neblina matinal de outono, encobria aquela cidade.

Durante a semana se dedicava integralmente ao trabalho e deslembrava da solidão, porém nos finais de semana a coisa era diferente. Era nos momentos de folga que aflorava o desejo de ter uma vida e a consequente frustração de não tê-la. Ressentia-se da falta de amigos, pensava até em ter um amor, uma companheira… Que sonho distante! Não era bonito, e naquele lugar, onde as pessoas se achavam cosmopolitas enquanto viam o mundo unicamente da perspectiva de seus bairros, o jeito e sotaque de Benjamin em muito atrapalhavam sua integração.

Saiu de casa para almoçar sozinho em um domingo qualquer. Queria caminhar um pouco pela rua, observar as fissuras nas fachadas cinzas dos prédios, os buracos no asfalto e aquelas estranhas pessoas urbanas com seus passos rápidos e desvios de olhares.

Chegando ao restaurante sentou-se em uma mesa, cumprimentou educadamente o garçom, fez o pedido e comeu serenamente a refeição. Gostava do burburinho daquele local, sentia-se acolhido. A algazarra o lembrava da infância, dos almoços dominicais de sua numerosa família.

Não conseguiu dar conta do prato todo, bem servido naquele local tradicional, pediu então ao garçom que embrulhasse o que sobrou em uma quentinha. Voltou andando pela mesma rua, dessa vez ouvindo os ruídos dos ônibus que passavam em alta velocidade e observando pombos se alimentando. Foi quando avistou um rapaz remexendo o lixo.

Parou, olhou, se dirigiu a ele e perguntou:

Está com fome?

O homem, levemente encabulado, olhou de volta e disse:

– Tô sim senhor, não como nada desde ontem à noite.

Estendeu o braço e entregou o embrulho, aguardou um pouco e percebeu que o rapaz estava colocando a quentinha em uma pequena mochila, motivo o que o fez questionar se não ia comer logo, foi quando, já remexendo novamente o lixo, o rapaz respondeu:

Não senhor, vou guarda a comida para dividi com minha família.

Benjamin sentiu um aperto no peito. Sua sobra alimentaria uma família inteira, e mais, aquele ser faminto se sacrificaria por mais algum tempo para dar de comer aos seus. Ficou curioso:

Qual seu nome?

José.

Percebeu que o sotaque de José, assim como o seu, não era daquele local. Quis saber como ele tinha vindo parar ali, momento em que José, surpreso, perguntou:

O senhor quer de verdade conversa comigo? Quer saber de mim?

– Sim, eu gostaria muito que você me contasse sua história.

– Senhor, eu sou da roça, como o senhor pode percebê pela minha mão de enxada… aperta aqui… trabalhei a vida toda plantando e colhendo…

José apertou a mão de Benjamin (que sentiu a aspereza e o calejamento da mão do lavrador) e continuou:

– Faz um ano que meu filho mais novo, menino de quatro anos, apareceu fraco e foi ficando cada vez mais magrinho. Não queria mais comer, não queria estudar… nem brincar mais o menino brincava. A gente não sabia o que ele tinha e levamos o João ao doutor da minha cidade mesmo, o menino se chama João. Desculpe falar errado, sei que o senhor é doutor. Eu vejo pela sua roupa. Mas eu só sei falar assim… O médico mandou tirar o sangue do menino e depois mandou fazer mais exames e aí falou que só aqui na cidade tinha tratamento para ele.

– E qual é a doença dele?

– Olha senhor, o doutor me disse que é um tal de Câncer.

Benjamin sentiu a gravidade da situação, mas seu olhar passava algum conforto a José, que prosseguiu:

– O menino tinha que se tratar então pegamos as nossas coisas e viemos para a cidade. Eu, minha mulher, ele e o irmão. Ele fez uma operação, tá tomando remédio, estão cuidando bem dele… se Deus quiser meu menino vai ficar bom. O pessoal de lá nos deu muita coisa, roupa, brinquedos… tem umas pessoas que vai lá brincar com ele e é uma felicidade só ver o meu menino tão fraquinho sorrindo. Sabe seu moço… posso chamar o Senhor de moço?

– Claro que pode!

– Nós não temos dinheiro para viver nessa cidade, então arrumaram lugar para a gente… um tal de abrigo. Lá não é fácil sabe. Aqui tem muita maldade também. Queriam que eu fizesse coisa ruim. Eu prefiro minha casinha, ela é simples… Que saudade da minha casinha, da roça… Às vezes minha mulher chora, ela tá sentindo falta da nossa vida, meu outro filho também. A gente tem medo de o João virar um anjinho. Eu falo para eles não pensar besteira, e aí vou ao banheiro, sabe seu moço, tenho que ser forte, então quando a danada da lágrima quer sair do meu rosto eu me escondo… Dizem que homem não chora… Mas se até bicho chora porque eu não posso? 

Tô catando lixo para pegar umas latas… Além dos brinquedo e das roupa nos deram até uma cama para levar para casa, mas eu não tenho dinheiro para levar embora, então vou vender as lata e juntar. O pessoal acha que eu sou mendigo, mas não sou não seu moço, eu sou igual a todo esse pessoal que passa rápido aí por mim… Eu sinto as coisas seu moço…

Naquele momento Benjamin já tinha percebido que sua quentinha era muito pouco para ajudar um homem com uma vida tão difícil e ofereceu ajuda para José transportar suas coisas quando o menino tivesse alta, foi quando José disse:

– Seu moço, você não precisa me dá nada não, em alguns meses nessa cidade você é o primeiro que aperta minha mão e ouve minha história. Não tem ajuda nenhuma maior do que a que você me deu hoje. E sabe de uma coisa? Eu acho que às vezes ouço Deus… O senhor pode não acreditar, mas é essa voz que me diz para eu ser forte para minha família. É assim que minhas lágrima seca quando choro. O seu coração é bom seu moço… Não desanime nessa cidade grande, pois Ele sempre irá andar do seu lado.

José se despediu, continuou a caminhar e desapareceu pela rua.

Benjamin estava comovido, não sabia como reagir àquela história. Envergonhava-se um pouco de seus problemas, tão pequenos diante dos de José, assim como em sentir conforto neste encontro improvável.

No caminho de volta para casa ficou imerso em seus pensamentos, parou de olhar para as fissuras dos prédios, para os pombos se alimentado, e voltou sua atenção para as pessoas que com ele dividem a cidade. No pequeno trecho passou em sua cabeça um filme sobre toda sua vida e no quanto tem a agradecer.

Passados alguns anos do ocorrido Benjamin guarda vivo aquele diálogo em sua memória. Deixou de julgar as pessoas urbanas com seus passos rápidos e desvios de olhares, compreende agora que elas são movidas pelo medo. Lamenta, mas acostumou-se com a cidade grande e sua impessoalidade, contudo, não quer desperdiçar essa vida sendo mais um cego no meio da multidão.

Não sabe o que aconteceu com José e seu filho João. Gostaria de saber.

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