Textos – Eu lá lia

Ela não lembrava da primeira vez que odiara o próprio nome. Eulália não era um nome daquela geração, era nome de tia avó. Daquelas que sorriem muito, mas vivem sozinhas com gatos em apartamentos escuros. Daquelas que colecionam tranqueiras e dão meias e roupas de baixo para os sobrinhos. O nome da professora do primário, que usava batom leve e cabelo pintado. Tinha certa vaidade, mas vivia só e, em poucos anos, se tornaria a tia avó da geração seguinte. Eulália era nome de qualquer idade, menos a dela. Não era jovem. Eulália era nome fadado à extinção.

Durante a adolescência, a vergonha superava a acne, o aparelho dentário e a falta de jeito para os prenúncios de vida adulta. Havia a troca de olhares, os sorrisos de canto de boca, a pequena ajeitada no cabelo, para fazer charme. Mas quando o pretendente se aproximava, ela fugia.

– Oi. Tudo bem? Como é que você se chama?

Não saber beijar era o de menos. Difícil mesmo era ter que se apresentar. Muitas vezes, mentira. Já fora Paula, Luiza, Tatiana. Mas o mundo para uma adolescente é muito pequeno e logo era desmascarada.

– Lália, pega um guaraná?

– Lália? Mas seu nome não é Gabriela?

– Isso. Gabrie-lá-lia. Apelido besta, né? Sabe que até hoje eu não entendi por quê? – E sorria amarelo para ir atrás do guaraná e nunca mais voltar.

Uma vez, um jovem muito sensível se apaixonara por ela. Tão sensível, que Eulália teve medo. Ele era estranho. Não falava com ninguém, vestia-se de preto e, sei lá, ele tinha um ar assim meio psicopata. Numa sexta-feira à tarde, na saída da escola, o rapaz a convidou para um passeio. Não durou muito porque as primeiras palavras foram em forma de poema, com rimas fracas e imagens estranhas. O sangue, o sol, a saliva. Cada verso começava com um sugestivo “Eu lá.” “Eu lá, não seguia / Eu lá, não me permitia / Eu lá era verso solitário / Que eu, lá, lia.” No fim, ficou ele lá, sozinho.

Se não fosse pelos amigos de colégio, Eulália teria chegado virgem à faculdade. Um insulto à própria geração. Depois de anos mais sóbrios e produtivos, chegara à idade adulta com um bom emprego e uma ótima conta no banco. No extrato, apenas a lembrança da única barreira que ainda tinha para transpor: Eulália.

Foi às vias legais, mas o nome era comum e não chegava a ser constrangedor. Como provar que o constrangimento não estava dentro dela? Após uma tentativa fracassada, pelo argumento sólido e emocional do juiz, cujo carinho pela tia avó de mesmo nome era inatacável, Eulália mudou de tática. Na identidade, continuaria sendo Eulália, mas nada a impediria de ser outra no dia a dia. Seria como um nome artístico. Se Suzana Vieira pode ser Suzana sem ser Suzana, ela também poderia ser… Juliana.

Demorou alguns anos para convencer a família e os amigos de que agora ela era Juliana. Agia como o transgênero que volta para casa depois da cirurgia. Não adiantava insistirem na antiga alcunha… Ela agora era outra. Se quisessem, ela nem precisaria ser Ju, poderia ser Liana. Mas nunca Lália.

Aconteceu em uma dessas reuniões de antigas colegas do ginasial (porque embora negasse ter idade de Eulália, ela ainda era do tempo do ginasial). Foi a Lígia quem a cumprimentou primeiro, com um efusivo abraço. Tinha uma surpresa e queria dar a notícia ela mesma. Estava grávida. Era uma menina.

– E vai ter o teu nome!

– Como?

– Minha filha vai ter o teu nome!

– Juliana?

– Juliana? Não… Eulália. É lindo. Tem força. E não é um nome assim, comum. Ela vai ser única.

Quando ela se levantou aos prantos na direção do banheiro, as amigas concordaram que a Lígia tinha sido precipitada em dar a notícia assim, sem preparar terreno. Afinal, Eulália tinha força, mas a Juliana era muito mais emotiva.

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