Textos – O mundo nunca foi tão esquisito como agora

“O mundo nunca foi tão esquisito como agora”
Isso é sempre o que dizem os que vivem agora
Começa aqui – sem querer – mais um poema sobre mim e sobre você

A gente sente falta da vida que nunca teve
A gente sente falta de vento na cara feito cachorro na janela do carro
A gente quer mudar o mundo, mas nunca sentiu na pele o sol do saara
A gente quer mudar o mundo, mas nunca convidou o mendigo da nossa rua para jantar na nossa casa

A gente acha que decide que vai fazer o que quiser das nossas vidas
De manhã, a gente dá informações para um estranho e se sente bem
À tarde, a gente briga com alguém por qualquer bobagem na fila do supermercado
Antes de sair de casa a gente toma um banho de gasolina
Em cada esquina deveria haver uma piscina, mas não…
a gente pega fogo por qualquer esbarrão
a gente é a combustão da nossa Palestina…
Deve ser culpa dessa insana corrida
a qual fomos submetidos
quando a gente ainda nem pensava sobre a vida

A aldeia está lotada
Mas cada oca nunca esteve tão isolada…
Lá se vai mais uma traição incentivada pelo álcool
Lá se vai mais um papel rasgado
As cartas de amor estão muito raras
O amor é um compromisso a longo prazo

A gente se engana com uma perigosa calma
E se as coisas não melhorarem nas próximas eleições,
Vão melhorar no próximo réveillon
Isso é tão certo quanto o suor no chão
pingado da cara de um funcionário que coloca asfalto na estrada,
tão certo quanto o suor na terra pingado da cara de um roceiro segurando uma inchada

A gente tem dificuldade de sentir igualdade
Talvez por isso a gente faça tanta tatuagem
As nossas mãos estão sangrando,
feridas pelos espinhos das flores que seguramos com extrema força
Ao contrário do amor, que nos agarra de serenidade

As nossas ruas estão tomadas por falta de olhares
Uns gritam alto, outros gritam altos e outros gritam calados
Uns sobrevivem de votos, outros de suores e outros de assaltos
A maioria sobrevive ralando – sem alma
e a gente chega em casa e assiste o jornal para dormir um pouco mais inconformado
A gente começa a suspeitar que (quase) tudo é programado
.

O porteiro limpa a calçada com uma mangueira
O vizinho aumenta o som na música do Roberto Carlos
E a gente avançou o sinal vermelho porque estava atrasado
E a gente está dopado de burocracias,
bebendo água da baba de cachorro brabo

A gente vê que os dias estão passando
e ta todo mundo atochado, desconhecendo a paz
A gente começa a perceber que não basta apenas
Mudar de país, mudar nossos pais, mudar de nariz, mudar nosso cais

A gente pensa na possibilidade de não viver a vida que está se desenhando a partir do lado de dentro das nossas bolhas
Pouco a pouco e um pouco mais
A gente se olha no fundo dos olhos de um espelho imaginário
E começa a perceber
que estar atento às nossas próprias condutas
é mais difícil do que ir morar na lua

A vida é feito uma varanda escancarada
Entra vento forte, brisa, chuva, frio e sol de fim de tarde
E a gente sente que não é preciso ter coragem
É preciso sê-la
Aí…a gente vira um mosquito que sabe o perigo de pousar num prato de comida
Então, a gente começa querer a nadar em rio com correnteza
A gente começa a mergulhar em mar revolto
A gente começa a se molhar um pouco mais profundo
A gente começa a escrever músicas que não vão tocar na rádio

No fundo a gente sente
que de nada vale rasgar o tempo para ganhar presentes
A gente começa a achar que o natal não faz mais sentido
Quando tem muito passarinho lá fora com a asa ferida
Nenhuma revolução é verborrágica
Nenhuma boa mudança é mérito de palavras

Está na hora… Está na hora de dizer adeus… qualquer adeus, pois a moeda só tem dois lados,
A vontade só tem duas faces
Ou a gente faz parte de alguma coisa pelo outro
Ou continuamos a fazer parte dos problemas a que estamos fadados
A roupa só tem dois lados,
mas a boca não tem duas voltas
Ou a gente começa a praticar beijos que não damos
Ou viveremos para sempre de frases cansadas
Nenhuma revolução é verborrágica
Nenhuma boa mudança é mérito de palavras

São seis horas da manhã, a padaria abre
O pão na chapa é sempre um convite para bater um papo
e no balcão um homem ao lado me diz:
“O mundo nunca foi tão esquisito como agora”
Amigo, isso é sempre o que nós dizemos
Isso é sempre o que dizem os que vivem agora
Nenhuma revolução é verborrágica
Nenhuma boa mudança é mérito – das nossas – palavras

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