Textos – Velho Marinheiro

Em uma pequena colônia de pescadores, localizada em algum dos lados do Atlântico, composta por apenas três quarteirões em ruas de pedra, com construções humildes, mas de certa forma charmosas, coloridas porém desbotadas, na beira de uma enseada de água verde, limpa, calma e decorada com barcos de cores vivas, que compunham uma linda paisagem junto ao azul do céu, moravam Antônio, sua mulher, filhos e netos.

O progresso estava distante, a exatos oitenta quilômetros, onde ficava a estrada asfaltada mais próxima, razão pela qual a modernidade não penetrava facilmente naquele local bucólico.

Antônio, já com certa idade, foi criado para viver no mar e respeitá-lo. Das águas tirava o alimento de seu corpo e alma. Pescador experiente amava o mar tanto quanto sua mulher, Maria, e seu maior medo era perder seu neto Francisco, de treze anos, para “aquele mundo louco lá fora, onde essa tal de tecnologia ditava o que o homem deveria ser”. Achava que a melhor maneira de manter o menino por perto era mostrar para ele como amar e domar a imensidão das águas.

Quando o jovem tinha algum impulso típico da idade e dizia que iria sair pelo mundo o velho falava “não se afobe meu filho, vida é como o mar, que alterna agitação e calmaria, o bom marinheiro sabe quando e como agir, um dia você poderá decidir seus próprios rumos, mas ainda é cedo.”.

No período de férias escolares António levava o menino diariamente para pescar e, apesar de semianalfabeto, era doutor de mar. Explicou a seu neto como funcionavam as marés, as correntes, a localizar um cardume e como identificar que o tempo ia mudar. Acordavam impreterivelmente às quatro da manhã, e na cozinha simples de sua casa bebiam um café feito na hora, comiam uma fatia de pão e caminhavam pela vila até o atracadouro onde zarpavam no barco de madeira antigo que sempre proveu o sustento daquela família.

Em um dia qualquer, Antônio, vendo a inquietação no neto andando pela vila a caminho do mar, olhou para Francisco e disse calmamente: “meu filho, o mar é mais que um mundo, são pelo menos dois, na tempestade é a imensidão incontrolável onde o homem, insignificante, é apenas um pequeno ponto lutando por sua sobrevivência, e na calmaria é onde o homem penetra fundo no universo que existe de sua cabeça.”.

No mar tiveram dias de fartura, de escassez, o enfrentaram quando revolto, se entediaram quando liso e uma vez só não naufragaram porque, quando ocorreu a mais terrível tempestade que presenciaram, Francisco já era um bom marinheiro que sabia se comunicar pelo apenas pelo olhar com seu avô e agir rapidamente.

Francisco cresceu, saiu da vila, foi para a cidade, estudou, virou doutor, mas sabe, graças a seu avô, que o homem é parte de algo maior e se lembra sempre da sabedoria e do carinho do velho com a certeza de que nenhuma escola do mundo será capaz de ensinar o amor que recebeu de seu avô e do mar.


Texto premiado com o 3º lugar no Concurso Literário Internacional Natureza 2016, em Lisboa, Portugal.

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