Textos – Uma Quinta-Feira?

Damião acordou naquele dia as sete, na verdade, gostaria de ter acordado as sete, mas o cansaço  não permitiu, acionou três vezes a função “soneca” de seu despertador e às sete e meia saltou assustado da cama.

Isso sempre acontecia nas quintas-feiras, quando sentia o peso da longa semana de trabalho. Tinha reunião logo cedo, não podia se atrasar. Entrou sonâmbulo no banho e sequer teve tempo de tomar café da manhã. Apenas se arrumou e saiu de casa o mais rápido que pode.

No metrô teve sorte, conseguiu um lugar sentado, o que lhe permitiria algum sono adicional no trajeto até o centro da cidade, mais que isso, teve a felicidade de o vagão no qual entrou estar com parte das luzes apagadas, o que junto com o barulho contínuo do trem cumpria o papel de lhe ninar.

Em meio a cochilos, às oito horas em ponto levantou a cabeça e olhou ao redor. O vagão era antigo, mas até bem conservado, com exceção das luminárias com defeito. Não estava muito cheio, contudo, havia pessoas em todos os bancos e algumas em pé.

Do seu lado estava sentada uma senhora com um envelope de  exame laboratorial no colo, do outro uma mãe relativamente jovem com uma adolescente uniformizada, no banco em frente, um casal de meia idade, ambos bem vestidos e em pé um grupo de turistas.

Embora houvesse diversas pessoas em seu entorno, não havia troca de olhares, todos estavam com as cabeças baixas e tinham seus rostos destacados pela luz dos aparelhos celulares, o que se acentuava em razão da pouca iluminação.

Damião passou a olhar com mais atenção a seu redor, a cena por algum motivo passou a atiçar sua curiosidade. Observava aquelas pessoas com um foco luminoso no rosto, tentava imaginar o que estavam vendo tão concentradas em seus aparelhos, o que levava a tanta indiferença ao redor, foi quando, sem qualquer aviso, o inacreditável aconteceu: uma fumaça branca saiu lenta e simultaneamente de todas as telas, envolvendo cada um. Em menos de um minuto, todos perderam suas características físicas e se transmutaram em manequins, similares àqueles de loja.

Pensou que ainda sonhava, ficou aterrorizado com a cena surreal, não havia mais qualquer resquício de sono, também pudera, seu coração começou a bater freneticamente, suava frio e esfregava seus olhos ininterruptamente.

Apesar do nervosismo notou que aqueles manequins continuavam a agir da mesma maneira, de cabeça baixa, olhando para seus celulares. Não percebiam nada. Apenas ele se atentava ao o ocorrido e ao tentar alertá-los reparou que ninguém ouvia o que ele falava.

Em seguida todo aquele branco se transformou em cores aleatórias, como se houvesse uma projeção diferente em cada um daqueles manequins.

Ao focalizar o grupo de turistas em pé a sua frente reparou que todos tinham exibidos em si dicas de atrações turísticas na cidade. Entendeu, então, que aquelas pessoas estavam expostas, pois seus corpos, embora padronizados, exibiam as telas de seus dispositivos.

Na senhora havia uma imagem de gato desejando bom dia, o qual estava sendo enviado para o grupo da família em uma rede social de mensagens.

Passou então a olhar para cada pessoa com o interesse de quem conseguiria penetrar em seus mundos particulares sem ser notado. O que antes o assustava agora causava um estranho encantamento.

No seu outro lado a mãe lia uma notícia de revista de fofoca enquanto a filha alternava entre mensagens para as amigas e a leitura de um filósofo, com a rapidez típica de adolescentes. A sua frente viu e-mails de trabalho sendo lidos e respondidos pela mulher enquanto seu companheiro tinha em si projetadas fotos de mulheres nuas.

Seu encantamento misturava-se, ainda, com um leve constrangimento enquanto percebia que adentara na intimidade daquelas pessoas imersas em seus mundos virtuais.

Eis que mais luminárias se apagaram e o brilho das projeções se tornou muito forte em contraste com a escuridão. O primeiro manequim que levantou a cabeça foi um dos turistas que ao olhar para um de seus amigos surpreendeu ao notar as atrações que ele via eram radicalmente diferentes do que haviam combinado.

A filha então percebeu o que a mãe lia e com toda sua autoridade adolescente questionou o porquê de ela perder seu tempo com tamanha futilidade, e simultaneamente começou outra discussão, quando a mulher se deu  conta de que seu companheiro estava vendo pornografia.

Quando todos aqueles seres saíram de seus mundos próprios, percebendo o que os outros estavam lendo ou vendo, uma briga generalizada se iniciou.

A impressão de Damião foi que aquelas pessoas não sabiam mais viver fora de seus próprios mundos virtuais, onde eram senhores e tiranos.

Eis que as luzes do vagão se acenderam e dos celulares se apagaram, momento em que os manequins perceberam-se novamente humanos. E olhando uns nos olhos dos outros foram obrigados a dialogar. As brigas, aos poucos foram diminuindo  e se  transformando em paz.

Damião simplesmente não acreditava no que estava presenciando, até ouvir um grande estalo e mais uma vez levantar a cabeça. Já eram oito e quinze, o metrô estava em seu destino. Começava mais uma quinta-feira.

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