Textos – Vertigem

8:15. Acordo em um quarto frio e escuro num dia claro e quente de verão.

Levanto sonolento, vou ao banheiro, mijo, entro no banho, saio, me arrumo.

Vou à cozinha, engulo rapidamente algo que não me faz bem, sem sequer sentir o gosto.

8:45. Pego o elevador, saio da portaria, na rua carros poluindo e buzinando. Espero o ônibus na sombra do poste.

10:00. Chego ao trabalho, bato o crachá. É importante que cada minuto do meu dia seja controlado. Está frio novamente, mas agora claro, são muitas luzes brancas. Ligo o computador, não sei se acordei.

Surge uma tarefa, começo a fazer. Todos estão preocupados, não sabem por quanto tempo terão emprego, saúde, ou até se serão assaltados repentinamente em uma esquina qualquer.

13:00. Hora do almoço, novamente está quente, até demais. A rua está lotada. Ônibus, carros, caminhões, bondes, pedestres, camelôs, polícia e ladrões, gente protestando contra e a favor do aborto, gente cantando, gente dançando, outros, como eu, só passando.

14:00. De volta ao trabalho, bato o crachá. O ponto devidamente registrado. Um rápido olhar nas notícias pela internet. O mundo está mais louco da janela de casa ou no website do Portal? Tudo parece caótico. As notícias são ruins, comentários piores ainda. Alguém estudou português? Alguém estudou algo? Ainda pensamos?

Mais tarefas, me sinto em uma gincana. Que frio! O medo é uma constante. Todos expressam preocupação. Quantas caras de susto são necessárias para demonstrar que é fundamental resolver imediatamente essa tarefa super relevante que amanhã já será esquecida.

20:00. Foram muitas tarefas. Chega por hoje! Hora de ir para casa. Está escuro lá fora. Continua quente.

21:00. Novamente em casa. Não tenho energias para cozinhar. Mais uma vez engulo alguma comida pronta que faz mal e me engorda.

Tomo uma ducha. Ligo a TV. O apresentador do jornal diz que a reforma da previdência será boa para mim. Agora terei que trabalhar até os 90, assim como o Papa, o Mick Jagger e o Papai Noel. Será que serei tão brilhante quanto eles? Será que vão controlar meus minutos até lá? E se o alzheimer chegar antes da aposentadoria? Terei auxílio doença? Desconfio que tentam me emburrecer ainda mais. Estou muito cansado. Ligo o ar condicionado. Deito na cama. Durmo. Não sonho.

8:15. Acordo em um quarto frio e escuro num dia claro e quente de verão. Levanto sonolento, vou ao banheiro, mijo. Penso: “Tudo bem, ainda posso viver aos finais de semana”.

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